terça-feira, 23 de agosto de 2016

2º - Experimentação de Jogos Vocais 23.08.2016

O plano é manter na segunda-feira uma experimentação com jogos vocais, iniciando com jogos já existentes, e a partir destes ir desdobrando. Partirmos neste dia do campo de visão/campo de audição/campo vocal onde o estímulo vem do corpo ( não a todo momento) o jogo é simples, mas precisa ser melhor estruturado, afinal você fala toda vez que escuta ou apesar quando a pessoa passa no seu campo de visão? Afinal, se o jogo parte da ideia que se tem que falar toda vez que se ouve você fará o som a todo momento, uma vez que se escuta o tempo todo. Estabelecendo a regra de que só se deve falar quando ver a outra pessoa no campo de visão, estabelece um jogo também de desvio de foco, e atenção, onde a visão é um apoiador para essa produção sonora. 
Trabalhamos neste campo de visão vocal, com diversos estímulos, onde quis explorar um a um. Acredito que o estímulo é a chave para a produção, pois cada tipo de estímulo é uma variante e dentro destes se pode perceber mais um milhão de possibilidades. Trabalhamos com o estímulo da música, o estímulo da mistura de animais, estímulos abstratos, estímulos de sentimentos, estímulos que partem do próprio corpo, estímulos que parte da produção do outro. Tentei variar inicialmente, tentando pelo menos trabalhar um pouco estes estímulos isolados para depois mescla-los. Iniciei então sem outro estímulo que não fosse a música. Era bacana pois ela ditava o ritmo. Marco disse que usou ela como base para a produção vocal neste momento, ele vez o encapsulamento neste momento, pegou o som que música trazia ( que era em outra língua) e foi encapsulando uma palavra dentro deste som. Além disso, ele estabeleceu um ritmo para essa produção algo limpo, um tanto quanto diferente pois normalmente se estabelece a pesquisa pelo caos, pelo extravasamento, e neste momento onde O FOCO ESTAVA NA MÚSICA COMO ESTÍMULO, e isso limpou a produção sonoro, trouxe um ritmo uma dinâmica, a partir do que a música trazia. 
Em seguida comecei com o estímulo do sentimento com "Palhaço Feliz". Esse é um estímulo muito pertinente, pois já havíamos chegado a conclusão de que estímulos abstratos são mais eficientes para a criação, uma vez que não deixa algo pré estabelecido, porém quando se trabalha este a partir de sentimento quais são as resultantes? Há uma pessoalidade na nesta " felicidade de cada um" e essa " felicidade" é uma felicidade que seria estabelecida corporalmente e vocalmente se não tivesse o SUJEITO PALHAÇO lhe determinando? Acho que é que ainda deve ser mais aprofundado com estímulo, pois se digo palhaço, realmente são imagens estabelecidas que surgem, mas se dou uma característica a esse sujeito, ou até mesmo um sentimento, pode ser que as possibilidades de desdobrem. O FOCO NESTE MOMENTO ESTAVA NA VOZ DE COMANDO. É interessante que quando se perde o foco na voz de comando, ou se acabam as ideias, os atores comentaram que sempre recorriam a música, como se esta fosse um apoio, uma base um "save point" onde se você perde o jogo, sempre poderá voltar de lá. 

Teve um momento muito interessante que Rejane ( não sei qual era o estímulo deste momento) começou a criar e brincar com a voz a partir do corpo, quicando no chão. A o jeito como quicava com o corpo moldava a voz dando forma dinâmica e dilatação para esta. O que me faz lembrar de um outro momento, que na verdade esteve presente o tempo todo, que realmente é essa relação de como o corpo e seus músculos, onde este molda a voz. Em todos os momentos, independentemente do estímulo dado para a criação, o que modo como a boca se articulava, se moldava, se torci, mexia, (não sei exatamente a palavra certa que se enquadra nesta definição) eram meios para trazer registros diferentes para essa voz extra cotidiana. Estão se eu falasse "AH" com a boca mais aberta, com a boca de lado, com a boca fechada, usando bico, com a língua para fora, franzindo o rostro, e ex eram formas e variáveis de explorar um mesmo. A voz é de fato algo fascinante, pois por mais que eu ache o registro dela dentro de mim, onde vibra mais a cabeça, o peito, a barriga, ou gargante, e eu percebo se ela é mais ou menos aguda, ainda tem essa variante que é o modo como eu emito esse som a partir do jeito como eu arranjo tanto o meu corpo, quanto a minha boca, além do fator do volume, pois se eu projeto mais ou menos um som ele também terá as suas variantes. Um conclusão a partir dessa percepção dos músculos da boca é que 
"OS SONS MAIS BIZARROS SURGEM DE UMA DEFORMAÇÃO DA BOCA" 

Depois de um tempo no campo de visão vocal, parei de dar os comando de pesquisa pessoal, passar o comando para alguém ou mesmo dar estímulo, a produção começou a ficar fluída, e de repente se estabeleceu um cena que surgiu (acredito) graças a produção vocal estabelecida. Fagner com um tom mais grave e grosso, enquanto Rejane e Marco mantiveram um registro agudo, e de repente Fagner era um  Urso, retomando a um estímulo dado no inicio do jogo, de "URSO DA MONTANHA", e Rejane e Marco eram ou mãe e filho, ou duas crianças, enfim.. eram pessoas com medo do urso. E o jogo se estabeleceu por um tempo onde fagner atacava lentamente e eles fugiam. Analisei a situação por um tempo buscando um meio, um comando onde eles pudessem alternar esse registro ou um pegar o registro do outro, como um troca, onde não se troca a fala, e sim a pessoa. Então pensei em dar o registro do Fagner para Rejane, o registro da Rejane para o Marco e o registro do Marco para o Fagner. Mas achei que isso geraria uma certa confusão, então deixei que se ouvissem mais um pouco e pedi que Rejane trocasse de registro com Fagner. Foi interessante por que o registro dos dois eram muito opostos, e um começou a absorver o registro do outro, tanto vocal quando corporal.  E depois troquei com o Marco assim por diante, até todos passarem pelos registros. Isso foi interessante para a apropriação do registro vocal do outro, mas questões surgem a partir disso, afinal no campo de visão vocal não é justamente isso que acontece? Quando o comando está com uma pessoa as demais que a seguem se apropriam do seu registro? Qual seria a diferença (se que há alguma diferença). Talvez a relação esteja no foco. Isso foi algo que dei muita atenção, afinal a resultante varia de acordo com o foco. Se o foco está no corpo, e a voz está em jogo, essa surge como consequência. No campo de visão vocal durante a pesquisa pessoal o foco pode estar em muitas coisas, mas quando o comando está em algo, o foco não está necessariamente na absorção ou apropriação, e sim em fazer o movimento do outro, e trabalhar matérias internos para essa produção, criando diversas associações. Então, talvez, quando eu disser " fulano troca o registro com ciclano" o foco seja realmente a absorção/apropriação do registro do outro.

Ao finalizar o campo de visão debatemos um pouco estas questões e como foi isso para quem estava de dentro. Um comentário do Marco Antônio que achei curioso e ainda não ficou muito claro  foi quando ele disse que " Se eu tenho corpo de palhaço e voz de pedra eu sou uma pedra com corpo de palhaço" como se a voz fosse interno predominante, e o corpo um externo, plastico, uma camuflagem.

Em seguida fizemos um jogo, onde diferente do primeiro o corpo não seria ponto de estímulo. Ainda não sei o nome do jogo mas nós já havíamos realizado este na escola de Teatro Darlene Glória em Cachoeiro de Itapemirim com o professor Luiz Carlos Cardoso (atualmente integrante da Cia do Outro). O jogo consiste em uma apropriação consciente. Cada aluno se estabelece em um canto da sala/espaço. Um de cada vez caminha até o outro fazendo um som, por exemplo " CHUÁAA, CHUÁA" e repete este som até chegar na pessoa escolhida. Ao chegar, a pessoa escolhida começa a fazer o som junto com a pessoa que foi até ela. As duas ficam por um tempo fazendo "CHUÁ CHUAÁ CHUÁA". Quando a pessoa escolhida perceber que encontrou o registro, o tom e etc, que a outra pessoa propôs ela sai caminhando no espaço fazendo este som por um certo tempo. Ao chega no meio do caminho ela escolhe um dela agora, podendo ser desdobrado do último som, ou algo completamente diferente ( ainda não sei ao certo se há uma diferença ou potencialização entre o desdobramento e o salto). Com isso ela escolhe outra pessoa vai até faz o som e assim por diante. Permanecemos neste jogo por um bom tempo, e muitas coisas podem ser extraídas a partir deste. A primeira coisa que achei interessante, é que enquanto eu busco meu som no caminho, eu busco me conhecer, eu exploro peito cabeça, variados tipo de ressonância para conseguir atingir o som que pretendo, é um período de DESCOBERTA. Quando a pessoa chega na pessoa escolhida é um outro momento de descoberta. É hora de ter o ouvido atento, pois você precisa encontrar o registro que a pessoa usa, uma vez que você não ter ideia de como chegar a esse registro, então você o escuta, e escuta e perceber como fazê-lo e então começa a buscar em você, sem muitas delongas, você parte para ação mesmo que não entenda perfeitamente como funciona o registro, porém busca no seu próprio corpo, formas de fazê-lo.
Apesar do corpo jogo não partir do corpo, este por sua vez esteve presente mais um vez, pois por diversas vezes o corpo orientava o som, ou ditava o ritmo, mas acho que não por estímulo, não era dele que partia o som, mas ele orientava ele fazia lembrar, e talvez o corpo desdobrava. Mas focando exclusivamente na boca e seus músculos, este sim estava presente o tempo inteiro, a deformação e suas formas. Acredito que em todos os sons, mesmo que de forma mais sutil, o molde da boca este presente.
Por fim decide levar o jogo para um outro nível trabalhando o encapsulamento. Eles pegavam o som  de uma pessoa, o faziam por um tempo, e então tentavam encaixar uma palavra ou frase dentro dele. Foi interessante perceber pois muitas vezes era necessário que esse molde da boca de transformasse para sair a palavra, para que linguagem se estabelecesse. O Marco por exemplo teve muita dificuldade com isso de inicio, pois parecia que fazendo isso você mantinha só o ritmo e não o registro em si, uma vez que este precisava ser adaptado, mas acho que o jogo é justamente esse, como colocar a palavra nesse som extra, que não é seu, que não é cotidiano? Sem fugir muito do registro, mas desdobrando-o.

Perceber o encapsulamento dentro deste jogo, e até mesmo em alguns momentos dentro do campo de visão vocal, fez pensar que talvez ele pudesse ser um aquecimento padrão que estivesse dentro de todos estes jogos, uma vez que ele acaba por estar.

Por fim fizemos uma cena de improviso com Quem, onde e o quê para experimentar se esse repertório que se estabeleceu surge sem intencionalidade, assim como acontece com a memória corporal, uma memória vocal. Colocamos apenas a regra que três de alguns registros deveriam aparecer os registro: Urso da Montanha/Laranjinha/ Voz de Pedra. O lance era justamente esse, eles não iriam parecer por que eu algum momento ELES TINHAM QUE APARECER, e sim por que os atores a partir de um improvisação sem saber o momento, achariam o local ideal para inserir tais vozes.
O primeiro quem, onde e o que eram: Dois Bandidos e uma caixa/ Num supermercado/ Assaltando
esta vez não deu certo. Marco e Fagner estabeleceram uma voz inicial para o personagem a partir de um dos registro, logo o extra cotidiano se estabeleceu durante todo o tempo. A segunda tentativa eram: dois desconhecidos e um dono de bar/ Num bar/ Brigando por que se olharam torto. Desta vez a voz surgiu intuitivamente, dentro de uma ação, não necessariamente para representar, e sim para completar, criar oposição, destacar e acentuar alguma coisa, e por mais que esteja diluída graças a apropriação, ela surgia espontaneamente, mesmo sem estar no foco.

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