quinta-feira, 20 de abril de 2017

10º Encontro 11 de Abril de 2017

Este é o nosso primeiro registro formal dos encontros. Desde o primeiro período quando conheci a prática de escrever sobre o processo percebi o quanto isso o potencializava, pois no processo de escrita coisas novas surgem, coisa antigas são relembradas, a uma atenção que é posta em foco nessa escrita, pratica-se a escrita para além da grade curricular da faculdade, surgem questão artísticas, questão de pesquisa, questões para cena, questões para a vida enfim. Então, o que escrever aqui? Tudo. Tudo que sentir vontade e desejo, jogue no papel, e compartilhe com o grupo, pois tendo em visto que tudo afeta e altera, de alguma forma isso afetará a montagem. Jogue desenho, gráficos, poesias, rabiscos, prosas, reportagens, vídeos e de tudo em tudo, aos poucos, como um quebra a cabeça os relatos vão se encaixar.
Nesse dia estávamos apenas eu, Sami, Leo e João. Marco não tem podido vir nos ensaios, isso é uma experiência muito diferente para mim, esse ensaiar fragmentado onde não estão todos presentes, me fez refletir pois sempre vi o processo como uma parte de um todo, onde isso interfere diretamente e todos acompanham, o ensaio está para além da sua cena, você não vai em um ensaio apenas para estar em cena, é uma contribuição mutua, e talvez eu nunca tivesse percebido isso de fato, e não que eu esteja reclamando, entendo que as vezes é necessário, mas isso acontecer me fez perceber essa relação de encontro, de estar presente, de interferir, de falar para além de estar em cena.
Mas vamos ao processo. Iniciamos com uma pesquisa de construção a partir da mescla de animais. Lecoque propõe o trabalho com os animais, mas acredito que a mescla é um desdobramento.  Gosto de trabalhar com a mescla pois vai de encontro com a relação de abstração, pois a mistura de animais por mais que os dois sejam concretos, ao misturá-los se tornam relativamente abstratos, ampliando o campo de criação apesar de ter uma base. É uma relação de choque de vetores, principalmente quando são animais muito distantes, e é como se ao acontecer o choque de vetores de animais diferentes, nascesse o novo na fricção de criação entre eles (óh uma questão de pesquisa interessante).
  

Falando em pesquisa, lembrei de uma questão da minha pesquisa, que sempre me foi perturbadora que é: Como não diluir a produção da voz extra cotidiana em cena? A voz naturalista por exemplo, o ideal é que ela se dilua, há produções naturalistas por exemplo que tanto em relação a voz quanto em relação ao corpo,  trabalham a extra cotidianeidade para ampliar o repertório, e depois vai se diluindo, diluindo, diluindo, até se atingir um efeito realista, meu objetivo é que não haja essa diluição, que a produção dessa voz fique e não como resíduo.  Vi nesse momento uma possível resposta, pois no trabalho com a pesquisa com os animais, utilizamos a porcentagem. Os atores começam a pesquisa a partir do estímulo desse animal, se eles estão dando o máximo que eles conseguem ou não,  a voz de comando que está de fora não sabe, quando ela diz que “agora você são 1% animal e 99% humano”, independentemente do grau que os atores propõe inicialmente, conforme essa porcentagem aumenta, eles também deve aumentar. Então digamos que em uma produção livre, eles dessem inicialmente 50% e isso já fosse interessante para ir para a cena, o instrutor ainda pediria para que ele chegasse ao 100%, pois caso houvesse uma diluição para ir para a cena, ele não diluiria tanto. Além de que o passar por todas as porcentagens, de 1% a 100%, é um meio de reconhecimento corporal e vocal, onde você percebe mesmo que não intencionalmente, as nuances de variações de uma porcentagem para a outra. Porém percebo um empecilho, que não necessariamente é atrapalhador, em alguns casos acredito que seja estimulante, mas o fato é que interfere. É que na pesquisa vocal em conjunto, o fato de todos os atores pesquisarem juntos, faz com o propositor de uma voz, não a escute, pois ela nasce no meio de um caos, que sem dúvida é estimulador, porém você não consegue por em foco a sua própria escuta, e talvez isso dificulte na hora de retomar, pois o ator apesar de ter um reconhecimento do próprio corpo, sabendo que jogando a voz para cima ou para baixo, moldando a boca de um jeito ou de outro, não sabe necessariamente o som que isso produz, pois não há uma consciência do que foi produzido inicialmente. 
Depois de todo o processo de pesquisa e construção vocal e corporal, realizamos o jogo de partitura compartilhada, para experimentar as possibilidades para a cena do Guloseima pedindo ajuda para a árvore. Sami havia comentado em outro ensaio no qual não fizemos o jogo o quanto esse ele abre repertório para os atores no momento de criação de cena, e realmente. Todavia, sinto que a falta de elementos reduz as possibilidades que poderiam ser criadas. Por exemplo, apesar de nada ainda está muito fixo, estamos fazendo a árvore com a extensão de dois paus nas mãos e bancos nos pés, o que já percebemos em outros ensaios o quanto diversifica as ações. Na partitura compartilhada não há o uso desses materiais para todos os atores que fazem a árvore isso impede a criação e proposição de outras pessoas, em relação a esses elementos, apesar de haver uma visualização, e uma criação a partir disso, não é como se houvesse o objeto em mãos, pois há uma relação de interferência que o objeto causa e molda no seu corpo. O mesmo acontece com a bolsa do Guloseima, e etc. Uma opção seria, uma vez que há a falta desse material para ambos trabalharem, dar o objeto apenas para o ator propositor, e não para o ator que realizará a cena.

Depois disso deixei os meninos os meninos fazendo a criação de imagens, e fui com a cena experimentar uma nova relação com a voz. Pedi que ele mapeasse as entonações e possibilidade vocais para a cena em que ela fala sozinha, com rabiscos anotações, formas que ela entendesse, onde ela fala alongado, onde ela fala baixo, rápido, embolado, grave, e etc, todas as variações possíveis que ela imaginasse enquanto decorava o texto. É a primeira vez que trabalhamos a voz dessa forma, Lucia Helena Gayotto em seu livro de Ação Vocal, já propõe essa técnica mais sistematizada, muito diferente do que estamos acostumados a trabalhar que é uma criação na prática, que surge espontaneamente em cena e não previamente elaborada, como fizemos dessa vez. Ao ir para a cena eu sabia que havia uma diferença, não sabia exatamente o que, Sami foi experimentando a partir do que havia escrito, eu fui acentuado coisas que considerava importante a partir desse olhar de fora da cena, realmente é uma relação mais técnica porém não é totalmente distanciada, a uma relação entre razão e emoção, onde ela se entrega para criar mas há em foco a percepção das coisas que havia escrito antes. Trabalhamos também com regra de jogo, não lembro exatamente quais, algo como mudar para o grave com uma palma, ou trabalhar os planos para a mudança desses “quem’s” da menina.  É interessante perceber a com isso, que o trabalho de partiturização da voz, é apenas mais um anteparo como qualquer outro, é um estímulo, é uma base, que ajuda na criação é se enquadra no empilhamento de um arranjo, que é composto por diversas coisas.